Eu tentei escrever a minha experiência sendo lgbt a partir da minha realização que eu sou lésbica, mas a verdade é que o meu processo de descobrimento é muito maior do que "só não gostar de homem". O meu primeiro contato com a comunidade lgbt não foi nem relacionado a gostar de mulheres.
Quando eu era criança, a coisa que mais me incomodava sobre a minha identidade eram as implicações que o meu gênero trazia sobre a pessoa que eu sou, e não é como se essa linha de raciocínio fosse em si algo muito complexo. Apenas o fato de eu ser uma mulher abre margens para pessoas que não me conhecem assumirem coisas sobre mim, somente o fato de eu ser mulher me coloca em posições que um homem nunca imaginaria estar, e eu - no meu primeiro ciclo menstrual com meus recém feitos nove anos - senti muita inveja dos homens. Conforme o tempo passsou, esse sentimento foi se complexificando ainda mais, parou de ser somente inveja e virou um desejo muito genuíno, e na minha cabeça cheia de hormônios e perguntas, eu acreditei que no fundo eu queria ser um menino. Porém, mesmo em uma trajetória "simples e precoce" eu encontrei empecilhos, não eram em todos os momentos em que a vontade de ser percebida pelo gênero oposto era latente - havia dias que eu me sentia plenamente mulher - mas em outros eu era tomada pela inveja dos privilégios masculinos. Tendo isso em mente, eu li um livro que tinha me "esclarecido" muito bem as ideias e me apresentado ao conceito de fluidez de gênero.
Na época fez muito sentido, a ânsia em ter o que os homens tem, fazer o que os homens podem, tudo isso poderia coexistir com a vontade ser mulher, de performar feminilidade. Hoje em dia - com a mente mais madura até certo ponto - consigo entender que a minha vontade não estava enraizada na masculinidade em si, e sim na leveza e tranquilidade que ser homem traz para você, principalmente quando comparado a experiência feminina em sociedade. Acho que o momento que a minha ficha caiu de verdade, que eu percebi que não queria realmente ser um menino, foi quando eu cortei o cabelo e comecei a ser questionada e comparada a um cara com quem eu estudava, isso me incomodou muito mesmo, e foi o pontapé inicial na minha jornada, que nesse momento se concretiza através das palavras.
Em nenhum momento eu desejei não ter passado por essa experiência, porque mesmo não tendo resultado na conclusão "que eu queria", ela abriu minha mente sobre o que de fato significa ser uma mulher e escancarou toda a misoginia velada nas relações sociais do cotidiano.
No meio dessa trajetória, eu passei pelo meu primeiro amor (o que com certeza vai ganhar seu próprio post, já que é uma história e tanto) e surpreendentemente ele foi uma menina - minha melhor amiga da época - e por si só isso é bem lésbico, os sinais sempre estiveram por aí sabe. O importante de tudo isso é que eu amei de coração aberto, porque ter encontrado a comunidade lgbt antes de experimentar o amor me apresentou o safismo muito naturalmente.
Acho que a parte mais díficil foi aceitar que eu não gosto de meninos. Toda a minha identidade e descoberta de certa forma girou em torno disso, eu pensei que o homem iria ser uma parte crucial do meu futuro, da minha identidade, mas o destino realmente guarda planos interessantes. A coisa que mais me confundia nesse processo é que eu sempre desejei - e ainda anseio - por coisas muito atreladas ao mundo heterossexual. Desde criança eu sonho em me casar de vestido branco, ter filhos e construir minha família, viver um amor tranquilo e digno de uma comédia romântica, mas a verdade é que nada disso depende da existência de um homem na minha vida. Nesses momentos eu me pergunto se eu tivesse sido exposta à mídias com casais homoafetivos isso teria sido diferente.
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